3 de junho de 2003

AS COISAS QUE INTERESSAM
Na verdade, enquanto nós estamos aqui a coçar os nossos umbiguinhos bem tratados, há várias mulheres que aguardam a hora da leitura do julgamento. Dentro de algumas horas, um grupo de homens terá decidido se eles vão viver ou ser enterradas até à cintura e lapidadas. Sabem o que é ser lapidado? É sentir a carne a ser arrancada, pedrada após pedrada; é desejar que nos atirem uma rocha maior que nos deixe inconsciente enquanto as outras nos fazem a cabeça e o corpo em estilhaços.
Isto parece demagogia intelectual? Então ofereçam-se para trocar de lugar com elas. Para os carrascos não seria assim tão diferente, executar um "pecador" ou outro...
A ETIQUETA BLOGUIANA
Não existe lá muito bem definida. Que me lembre apenas fazer o link para o blog mencionado aparece como a inovação fundamental. Esta medida simples parece-me da mais elementar democracia, porque permite ver a outra face da questão ou aprofundar o assunto pela leitura da fonte.
Não me consta que seja falta de etiqueta alterar os nossos próprios posts emendando gralhas, às vezes a mão demasiado impulsiva ou remetendo as polémicas de caquinha para o seu lugar na hierarquia das coisas. É chato ter que lembrar isto,mas um blog é a casa de uma ou várias pessoas que abrem, com mais ou menos honestidade intelectual, as suas portas aos outros. Às opiniões dos outros. Geralmente de forma útil, já que conseguem obter uma razoável percentagem de comentários e visões interessantes.
O que me parece desonestidade, e esse assunto já foi aflorado noutros blogues, é que as pessoas se escondam por detrás de "nicks". É preciso lembrar que o Ku-Klux-Klan usava barretes a tapar as caras?; que os torcionários e bombistas pelo mundo fora tapam o rosto e encobrem os nomes enquanto cometem toda a espécie de atrocidades motivadas por razões inconfessáveis. A nossa "blogoesfera" é pequenina, caseirinha, somos apenas algumas centenas. Mas em breve seremos milhares. Não seria de bom tom começar a assumir quem somos, dizendo francamente o que pensamos? Eu sei que isso pode parecer assustador, mas se olharmos em volta, para os melhores exemplos dos nossos blogues, todos sabemos quem escreve o blog-de-esquerda, a coluna infame ou a Janela Indiscreta, só para dar alguns exemplos... Vamos lá a acabar com a herança salazarenta e assumirmos a defesa das nossas ideias. E, já agora, lembro que se discutem Ideias. Não, Pessoas.
LIDO NA IMP...BLOGA (?!)
O Ricardo volta fazer o ponto da situação sobre as coisas passíveis de servirem de objecto de humor (ou de crítica), isto é: as que valem a pena.
"Não quero com isto dizer que a direita tem menos sentido de humor do que a esquerda. Escrevo humor há anos suficientes para saber do que é que ambas as casas gastam. Há de tudo em todo o lado. E há, sobretudo, um fenómeno que o Miguel Góis identificou muito bem num post anterior: todos gostamos muito de rir desde que não se faça humor com o nosso quintalinho."
Vão ler.


Há sempre alguém no mundo que não dorme. A luz acesa. Os olhos inquietos. O medo ou a maldade pousados ansiosamente sobre o interruptor velho. Velho como o mundo. Onde há sempre alguém que não dorme...

2 de junho de 2003

AGORA A SÉRIO
Raúl Solnado foi longamente aplaudido por um auditório cheio. Nestes tempos de desconfiança geral, foi bom ter alguém a quem aplaudir com carinho. E era de afecto que ia carregado aquele aplauso. Pelo menos o meu, era.
ARE YOU TALKIN' TO ME?!!
A. Solnado hoje assistiu ao lançamento da biografia do pai. Levava umas calças de ganga esfarrapadas e um blusão no mesmo estado de corte. Receio que as coisas entre ela e Cristo não andem bem...
COMENTÁRIOS
Bah! Já me estava a sentir solitário. :-)
BEING OUT OF MY WORLD
Ainda sobre as coisas que nos passam ao lado, escreve a Vera Martins:
"Estive estes dias em Coimbra. Fui com o propósito do Direito e Justiça no séc. XXI, Colóquio Internacional, fui meio escondida. Estava lá o Presidente, a Ministra e especialistas internacionais em Justiça.

Descobri através do contacto com gajos esclarecidos da interioridade que nós, lisboetas, somos odiados pelo resto do Portugal. A sério que não desconfiava porque frequento muito o minho e o alentejo. Mas estes que conheci são os que têm de vir e de ir no intercidades para ver umas coisas clássicas na Gulbenkian...não são as modistas e os lavradores com quem costumo conversar.

A sério que fico triste: eles sabem que levamos uma vida esfuziante de merda e odeiam-nos por termos as exposições, os lançamentos, e todos os concertos de grande qualidade capazes de atenuar a vida de merda que levamos. A sério que estou confundida. Chamam-nos"convencidamente limitados". Porra, ainda bem que não acreditavam que eu era uma verdadeira lisboeta".

Este assunto faz-me lembrar as confusões via correspondência que tinha quando fui morar para os Açores, na minha adolescência. Volta e meia via-me embrulhado em discussões que derivavam de alguma coisa que um dos meus amigos, ou eu próprio, escrevíamos e a que a distância tinha adulterado. É difícil para quem está nos centros de decisão entender o que se passa no outro extremo do país. Sabe-se lá o que é que a vizinhança de uma vila transmontana diz entre si sobre a forma como o governo deveria administrar o Estado. E vice-versa: como é que se pode esperar que alguém que mora para lá de Silves ou do Marão entenda que não é fácil viver em Lisboa, no meio da confusão, da poluição e da competição desenfreada? Facilmente se imagina que a capital é um pomar em que basta estender a mão para colher os frutos. Não é. Ou não teríamos cada vez mais gente a dormir nos vãos de escada, enrolados em caixas de papelão...
O que está a acontecer é a distorção provocada pela lente da distância.
CONFERÊNCIA VIA BLOG
O Nuno Centeio já o referia, no Espigas, mas aproveito para passar a palavra sobre este artigo do Público de hoje. Interessante.
CURTAS ÀS 4as
No cine222, lá vem mais um punhado delas. Maduras e sumarentas que nem só de novidades verdes se faz a vida.


En une poignée de mains amies, fleuve qui, par dessous les ponts, ouvre la porte de la mer..., de Jean Rouch e outros (Argumento baseado num poema de Manoel de Oliveira)
Lettre à Freddy Buache, de Jean-Luc Godard
Hong Kong, de Gerard Holthuis
Mort à Vignole, de Olivier Smolders
Au bout du monde, de Konstantin Bronzit

É na próxima 4a, às 17h, 19h15, 21h45.
Os bilhetes, os 3.50 € do costume.


ZONA DE COMENTÁRIOS
Sobre o post das Marias Madalenas, a Sandra escreveu-me, assegurando-me que a saúde das freiras fica muito periclitante, sempre que alguém vê o filme...
Acrescenta ainda, a propósito da manipulação matrixiana que alegremente sofremos e da minha esperança que as coisas melhorem, um dia, o seguinte:
"Acho que nunca irá acontecer... o mundo irá acabar num grande estouro provocado
pelo homem, ou num planeta perfeitamente estéril, consumido, abusado até ao
último recurso. No fim ainda haverá algum cataclismo que o homem culpará. E até
esse dia as pessoas continuarão a precisar de alguém que pense por elas, que
tome todas as decisões por elas. Alguém, que no instante final, possam sempre
culpar por as coisas terem corrido mal. É muito mais fácil e cómodo ser-se
manipulado do que ter que tomar decisões e arcar com as responsabilidades das
mesmas.
E tudo é desculpabilizado a quem tem o poder (politico ou religioso) nas mãos.
Não se pensa sequer em questionar com medo de se ser abandonado."

Concordo que a maioria das pessoas tem medo de naufragar numa ilha deserta. O que fazer sem o "Club Med" assusta a maioria. Mesmo os que ficarão sempre na entrada a segurar nas malas.

TIRAS
Para quem se dedica à leitura das histórias com ratos, insectos e outros seres estranhos no Diário de Notícias, aqui fica o endereço do Níquel Náusea.

1 de junho de 2003

VIOLINOS NA NET
O site das Letras de Paganini, coordenado por Pedro Farinha e com a colaboração de várias pessoas interessantes, fez o favor de me perguntar coisas. Quem tiver curiosidade, faça o favor de passar por lá. Se não tiverem pachorra para a entrevista, ignorem-na que não fico chateado ;-) Há lá mais coisas de interesse.
AS IRMÃS DE MARIA MADALENA
Fui um bocadinho desconfiado, alguns blogs tinham-no referenciado como um filme comprometido socialmente e sem interesse. Na verdade o que queriam dizer era "comprometido LOGO sem interesse".
Afinal, não. Ou seja, este filme não apela ao estatuto de obra de arte mas ao de denúncia de uma realidade que nos passaria ao lado sem ele.É um murro no estômago ver o sofrimento daquelas mulheres aprisionadas no meio da hipocrisia religiosa. Eu, que já não andava lá muito contente com a Igreja Católica, fiquei com um pó a freiras... O mal que se tem feito e continua a fazer em nome de "valores" que não passam de formas de controlo é imenso. Não acredito que esteja vivo no dia em que as pessoas acordarem para as formas de manipulação a que são sujeitas todos os dias. Mas consola-me pensar que isso talvez aconteça um dia...
Quanto ao filme, dirão os mais puristas do cinema que enquanto objecto artístico que não acrescentou nada. Terão razão. Mas há filmes que é importante que continuem a ser feitos. Lembrar as mulheres aprisionadas em nome do pecado é como lembrar o Holocausto. É manter acesa a chama da lembrança, não por morbidez, mas para que se detectem os sinais da maldade, prematuramente.
O FUTURO ESTÁ NA 2
Morais Sarmento já anunciou o alinhamento dos programas da nova RTP, canal "Sociedade" (actualíssimo nome, que só poderia vir de um governo com este perfil). Abre às 6.00 h da manhã e meia hora mais tarde transmite programas dedicados às Minorias (whatever that means).
É louvável o esforço de quem pensou este horário porque compreendeu bem o que significa a palavra "minoria": uma forma de pensamento que deve ficar ignorada da maioria.
AFINAL ISTO NÃO ESTÁ ASSIM TÃO MAL...!
Há algum tempo atrás, escreveu o Pedro Mexia :
"Nem de propósito, encontro F., um dos nomes essenciais da literatura portuguesa actual. Elogio-lhe vivamente a obra. Diz-me que não tem escrito, porque não tem editora. É nestes momentos que eu percebo que esta piolheira é irreformável."
Normalmente concordaria com esta citação do rei D.Carlos a João Franco, aqui repertoriada, pelo Pedro, e igualmente com a substância do post, mas acabo de ver na Sic, a cobertura do lançamento o livro de Maria Roma (como a avenida, sim). Além de uma parafernália de Caras (a rivalizar com o da minha amiga Rita F., mas sem o camarada Santana, provavelmente ocupado a consultar a revista "Cidades-Decoração") estavam uma miríade de fotógrafos e "repórteres" culturais.
"Um livro em que falo do amor!", disse a autora.
Sou forçado a concluir que não há acontecimento cultural que escape aos nossos media.
MUITAS FORMAS PARA SI MESMO
"Não há lá quadrigas, não há pontes, não há trilhos.
Mas ele forja para si mesmo, quadrigas, pontes, trilhos.
Não há glórias, não há prazeres, não há deleites...
Mas ele forja para si mesmo, glórias, prazeres, deleites...
Num estado de sono profundo, erguendo-se e descendo, um deus,
ele faz muitas formas [para si mesmo]"

Brihadaranyaka Upanishad
(sabia que um dia encontraria alguém com um nome mais complicado que o meu, Viva!)

Tradução de Manuel João Magalhães
(in ROSA DO MUNDO)
IRRITAÇÃO NOCTURNA
Enquanto investigava o paradeiro de um poema que se quisesse mostrar aqui, derrubo uma lata de drageias alemãs. Raios as partam, as drageias. De flor de laranjeira, ainda por cima, que sendo um sabor antigo, só atrapalha...
Tenho o chão do office cheio de armadilhas para formigas.
Conhecem algum poema chamado "Suspiro"?
(e a vassoura, onde será que a meti?)
POEMA DOMÉSTICO
Hoje meti uma máquina de roupa a lavar



...Acho que exagerei no sabão.
MAN-OBRAS
Como se esperava foi muito divertido :-) Os textos eram bons (Nuno C.Santos, Nuno Artur Silva ...) os actores também, os do costume menos as meninas. E o auditório à cunha.
Tiveram alguns sketches geniais, entre os quais o das claques do Saramago e do Lobo Antunes.
Julgo que haverá outro espectáculo. Recomenda-se, vivamente.